Portugal Abandona o Euro
[Antes que haja uma fuga de capitais para o exterior, cumpre-me avisar que o “Euro” que consta do título se refere ao Campeonato Europeu de Futebol. Eu não tenho informações privilegiadas sobre a Cimeira Europeia a decorrer em Bruxelas…]
Quem me conhece sabe que eu gosto de futebol. Das memórias colectivas dos tempos de faculdade, salta frequentemente um “eu lembro-me da Vera a discutir futebol ‘como um rapaz’, às Segundas-feiras, no bar da associação”. E, embora os noticiários dos últimos dias nos possam levar a pensar que nada mais se passava no mundo que não a presença da Selecção Portuguesa na Polónia, este texto não é sobre futebol. Ou melhor, não é sobre os aspectos técnico-tácticos (esta aprendi no Tempo Extra, com o Rui Santos!) do futebol, mas antes sobre o seu lado sociológico. É que os comentários que se ouvem quando a equipa das quinas está em acção em campeonatos internacionais traduzem bem a nossa atitude enquanto povo, parece-me.
Desde logo, o comportamento bipolar de que falava há uns artigos atrás surge em todo o seu esplendor. Basta ouvir qualquer programa de opinião pública sobre “até onde pode ir a Selecção?” para perceber que os participantes se dividem em dois grupos: os que acham que somos miseráveis e nem da fase de grupos passamos e os que afirmam que somos os maiores do mundo e vamos dar uma cabazada a qualquer equipa que nos defronte. Raros são os que conseguem fazer uma análise serena e minimamente objectiva, ao jeito SWAT. Suspeito que assim serão também numa avaliação do país. Ora, sem identificarmos honestamente quais são os nossos pontos fracos, nunca os poderemos corrigir; tal como não poderemos aproveitar as nossas melhores capacidades, fazendo face aos desafios que se nos colocam.
Um segundo aspecto em que não deixo de reparar é na enorme condescendência que temos para connosco. Se perdemos, a culpa não é nossa: foi a falta de sorte, foi o excesso de azar, foram os dois juntos, foi o árbitro… A Alemanha, por exemplo, ganhou-nos por culpa deles, não nossa. Com a cumplicidade da bola, que não queria entrar. Aliás, a Alemanha tem as costas largas (os alemães têm-nas, literalmente, de facto), porque a culpa da crise também é dela. Não foi Portugal que deixou os alemães fazerem o seu jogo e só se lembrou que tinha de marcar golos quando se viu a perder; não foi o nosso ponta-de-lança não ser um ponta-de-lança; não foi o melhor marcador do campeonato espanhol não acertar com a baliza. Nada disso! Perdemos por culpa dos alemães e da falta de sorte. Que são os mesmos responsáveis por as nossas exportações não terem competitividade, por a nossa produtividade ser baixa e por estarmos todos endividados. Eu nem sou de Gestão, mas volto a sugerir que se faça uma análise SWAT; use-se o acrónimo português FOFA, se for mais amigável, mas faça-se.
Benchmarking: outro termo da Gestão em que somos péssimos. Aparentemente, entendemo-lo como uma ferramenta psicológica para nos sentirmos melhor. Por exemplo, comparamos o desempenho da nossa Selecção com a francesa, que não passou os quartos-de-final, com a holandesa, que perdeu todos os jogos, ou com as belga e austríaca, que nem lá estiveram, e ficamos logo plenamente satisfeitos com a grande conquista de termos estado nas meias-finais e ter perdido com o campeão do mundo. Na economia procedemos igualmente. Colocamos a nossa meta na média europeia e agradecemos os dois últimos alargamentos, que nos facilitaram a vida. E, se usarmos o Burkina Faso como referência, ainda mais contentes nos sentimos, porque os nossos indicadores são muito melhores que os deles. Mas isso não é benchmarking. Ou, eventualmente, será mau benchmarking. Fazê-lo bem é compararmo-nos contínua e sistematicamente com aquilo que é tido como o melhor nível, a melhor prática (não o nível médio, a prática mediana) e procurarmos, não somente a equiparação dos níveis de performance, mas também a sua ultrapassagem.
Eu, que gosto de futebol, que o discuto “como um rapaz”, fiquei triste com a eliminação da Selecção Portuguesa. Mas ficaria muito mais triste se o Euro do título deste artigo fosse a moeda única. Suponho que a maioria dos portugueses pensa o mesmo. Mas esquece-se que, contrariamente ao que sucede com o futebol, quando toca à economia do país, não somos treinadores de bancada, estamos dentro do campo e todos temos a bola no pé.
Nota: Vera Gouveia Barros escreve de acordo com a antiga ortografia.