Os fundamentos da economia europeia: 1918-2008
Referia a Edição do Público do passado dia 28 de Maio a morte do último veterano alemão (austro-húngaro) da I Guerra Mundial, Franz Künstler. A mesma ocorrência foi recentemente constatada para o último veterano francês. Ambos tiveram a oportunidade de se confrontar no decorrer da sua longa vida, com o horror da guerra e também com a evolução incerta e errática da economia europeia, que também difundiu sofrimento em doses maciças aos europeus. A economia europeia no século XX evoluiu numa lógica de ciclos de prosperidade de duração variável e de idas ao abismo. No entanto dois dos períodos sustentados de prosperidade alimentaram expectativas relativamente ao fim dos ciclos na economia. Um destes períodos mais recentes de expectativas exuberantes, remete-nos para o fim da década de 90, quando finalmente, os modelos econométricos produziram evidência que permitiu contrabalançar o pessimismo (ou realismo) subjacente ao ´Paradoxo de Solow´. Este último referia que a visibilidade e impacto dos computadores, era facilmente constatado nos locais de trabalho, no imaginário colectivo e na organização da sociedade, mas não nos índices de produtividade. Constatada a evidência econométrica da ´Nova Economia´, paradigma fortemente alicerçado na difusão das TIC e na afirmação da Sociedade de Informação enquanto projecto de organização da economia e da sociedade, assistiu-se a um exercício notável de análise académica e empresarial das oportunidades ilimitadas de progresso e regeneração social e colectiva e de superação dos limites da geografia que tal paradigma encerrava. Um relativo consenso, relativamente ao processo em curso de desmaterialização da economia, à progressiva desvalorização do componente custo de transporte na função de produção, e à perda de importância da função de produção agrícola e da função de produção das áreas rurais, parecia implícito na maioria das análises económicas produzidas na segunda metade da década de 90. O colocar das áreas rurais, num processo de ´mobilidade especial´, dada a sua migração da componente produtiva para a área do consumo/lazer, traduzia o espírito da época: a perda de importância da produção agrícola, contrabalançada pela aplicação de modelos económicos pós-modernos, do tipo turismo rural.
A recente evolução da economia europeia voltou a colocar na ordem do dia as páginas iniciais dos manuais de introdução economia, (o que significa não ser tão necessário o recurso aos manuais intermédios ou avançados). Refere qualquer manual introdutório nas suas páginas iniciais, tratar-se a economia de uma ciência social, o que implica assumir a natureza multidimensional dos fenómenos económicos e exige uma análise de impactos nas vertentes psicológicas e sociais. Referem ainda ser a economia a ciência da escassez e das escolhas, e propõem aos seus leitores, com base na análise da fronteira de possibilidade de produção, analisar o custo de oportunidade decorrente do aumento da produção de um bem x, em termos do bem y, ou, analisar a redução da produção dos dois bens em resultado de uma diminuição de um dos factores de produção. Algumas das ilustrações inseridas nos capítulos introdutórios remetem os alunos para o mundo agrícola, obviamente por razões de simplicidade. Os capítulos intermédios de qualquer manual introdutório à economia, referem o impacto da crise de 1929, na análise dos impactos da inflação e relembram, ao tratar do tema do crescimento económico, o impacto da crise petrolífera dos anos 70/80, a crise da dívida dos anos 80 e a problemática do desenvolvimento no Hemisfério Sul.
Em suma, os conceitos básicos de qualquer manual introdutório de economia, voltam ao centro do palco da análise económica por mais sofisticada, de um ponto de vista matemático e econométrico, que seja a sua abordagem mais recente. Os fundamentos da economia, na sua vertente de escassez, evolução por ciclos e dependência do sector primário parecem inabaláveis caso se compare as duas datas em apreço.
Por: António Almeida
Professor Auxiliar do Departamento de
Gestão e Economia da UMa