O impacto da crise e da globalização visto das ilhas
Não existem dúvidas que um conjunto de tendências bem patentes em 2007/2008 (aumento do preço do petróleo, corrida às matérias primas em África, os riscos de multiplicação de Estados Falhados, a ´improvável´ crise financeira) deverão ser entendidas como estruturais o que obriga a repensar modelos económicos e sócio-culturais com aplicação em curso, sob pena de a acção dos micro actores se inscrever num cenário de irrealidade a breve trecho. As alterações climáticas em conjugação com as mudanças geo-económicas em curso têm abalado os fundamentos filosóficos dos modelos matemáticos subjacentes à análise econométrica da realidade económica. A frequência de cisnes negros* (eventos catastróficos e teoricamente improváveis mas com profundo impacto na credibilidade dos sistemas económicos e políticos e na psique colectiva) deverá atingir níveis incomportáveis, com profundas alterações na paisagem económica, social e política de alguns territórios.
Depois de séculos e décadas de relativa marginalização em decorrência da localização periférica e da sua insignificância económica e de subordinação às lógicas económicas globais, os territórios insulares voltam à linha da frente de contacto com as transformações globais. Primeiro, as alterações climáticas atingem com especial incidência as regiões insulares e costeiras. A frequência ´anormal´ de ´acidentes´ climáticos parece irrefutável. Segundo, a localização periférica implica que uma eventual desorganização (ainda que momentânea) da estrutura de transportes e mobilidade em decorrência de um choque petrolífero brutal atinga em especial as estruturas económicas insulares. Terceiro, as migrações Sul-Norte atingem expressão particularmente visível no contexto das ilhas mediterrânicas (basta lembramo-nos da experiência das Ilhas Canárias), pólos tradicionais de emigração e não de imigração, contribuindo para o alargar das preocupações em sociedades/economias já debaixo de stress. Quarto, a redefinição do papel Estado tem evoluído num sentido que limita a extensão da solidariedade inter-regional. Em suma, as regiões insulares confrontam-se com um conjunto de mega-tendências, de uma forma similar à constatada no século XV quando constituíram laboratórios e espaços de experimentação para o processo de colonização do continente americano. Ou seja, a experimentação das mega–tendências será feita uma forma directa, casuística e em primeira-mão e não de uma forma difusa e/ou retarda tal como aconteceu no Sec. XX.
A experimentação em primeira mão dos impactos das mega-tendências poderá não constituir necessariamente uma catástrofe, mas ao contrário, poderá implicar o desenvolvimento de uma economia e sociedade resilientes e a afirmação de um conjunto de princípios em matéria de desenvolvimento económico e humano que sobreviva à tempestade das incertezas (em termos de economia politica e modelos matemáticos aplicados às ciências socais) que se abate sobre as sociedades actuais. Não existem certezas quanto à subida do nível do mar, nem parece exequível a construção de uma linha de diques à holandesa, até pela incerteza referida atrás. Mas como não restam dúvidas sobre a elevada probabilidade de ocorrência de eventos catastróficos, é preciso construir sociedades que possam sobreviver a choques externos, manter a sua operacionalidade no curto prazo, e reconstruir um ponto de equilíbrio. Alguns experts na temática das economias insulares que têm analisado a sobrevivência de algumas sociedades insulares e o desaparecimento de outras apontam para um conjunto de princípios intemporais, que radicam no desenvolvimento de elevados índices de capital humano, na partilha de informação pela sociedade, na construção de sociedades solidárias e interligadas e no desenvolvimento de produtos e serviços de elevado valor acrescentado. Em resumo, e de uma perspectiva económica, os princípios atrás referidos primam pela banalidade. No entanto, é incorporado um factor de multidisciplinaridade e não quantificável que faz apelo às ciências sociais e humanas na sua pluralidade para a construção de sociedades resilientes.
(Ver the Black Swan, The impact of the highly improbable, de Nassim Nicholas Taleb)
Por: António Almeida
Professor Auxiliar do Departamento de
Gestão e Economia da UMa