Seguindo o Plano de Actividades do ano que terminou, pela primeira vez, a Delegação Regional da Madeira da Ordem dos Economistas, elegeu o Facto Económico do Ano.
Vera Barros, um dos elementos do Secretariado Regional da OE, encarregou-se de fazer a análise.
O Facto Económico do Ano 2008
Nesta primeira eleição do facto económico do ano, tive, devo confessar, a tarefa muito facilitada. 2008 ainda não terminou, mas duvido que, nos dias que faltam para 2009, surja algo que se sobreponha à crise financeira (aka. crise do “subprime”). Pesquisando no Google, “crise financeira” devolve cerca de 11 600 000 resultados e de 446 000 para “crise do subprime”. Mas de que falamos, afinal?
Recuemos uma década, até meados dos anos 90. O mercado bolsista americano estava em alta, impulsionado por uma histeria colectiva em torno das empresas ligadas à internet, vulgo “dot.com”. A bolha especulativa foi insuflando, mas com a robustez de uma bola de sabão. Rebentou em Março/Abril de 2000. Receando uma recessão, Alan Greenspan – então Presidente da Reserva Federal Americana (FED) – baixou drástica e subitamente as taxas de juro.
Façamos nova analepse. Desta feita, até ao início dos anos 80, quando uns pequenos bancos, os “Savings and Loans” (S&L), de carácter local e, muitas vezes, rural, entraram em bancarrota. Os seus créditos foram assumidos pelo Departamento do Tesouro, que os tentou vender no mercado financeiro. Dado o enorme volume de tais activos, e porque não havia comprador para tudo, o Departamento do Tesouro “titularizou-os”. Não foi uma novidade: existia já um mercado em que os bancos compravam e vendiam os seus empréstimos sob a forma de títulos. Mas os activos dos S&L vieram dar-lhe um grande impulso e transformar este mercado num modo dos bancos diversificarem o seu risco. O que tornou possível conceder empréstimos a grupos de maior risco. Empréstimos que eram normalmente contratados com uma taxa baixa nos primeiros 2 anos, a qual aumentava significativamente nos 28 anos seguintes, para compensar o risco. Empréstimos arriscados, cuja classificação pelas agências de rating foi abaixo de A-prime (e daí a designação de subprime).
Junte-lhe agora a mais rápida descida das taxas de juro que os EUA conheceram. E adicione investidores em busca de algo que substitua as suas actividades bolsistas, já que a Bolsa colapsara. Mantenha as taxas de juro baixas (foi o que fez o FED), deixe a especulação tomar conta do mercado imobiliário e... Voilá!, sai uma crise financeira que é considerada a pior desde a trágica quinta-feira de 1929.
Quando no início da Grande Depressão perguntaram a Keynes se a história havia conhecido algo de parecido, respondeu ele: “Sim, chamava-se Idade das Trevas e durou 400 anos”. A situação actual não se resume à falência de meia dúzia de bancos – que muito boa gente acharia providencial –, mas sim a uma crise financeira, que se começa a reflectir na economia real. Com os activos a perderem valor e o acesso ao crédito dificultado, reduz-se o consumo e o investimento. O abrandamento da actividade económica gera desemprego e aumenta o risco de incumprimento no pagamento das dívidas, o que, por sua vez, fragiliza o sistema financeiro e dificulta ainda mais o acesso ao crédito, num ciclo vicioso que pode ser amplificado pela perda de confiança dos agentes económicos.
Felizmente, ao contrário do que sucedia na Idade das Trevas, temos hoje bem mais conhecimentos sobre o funcionamento da economia. Os principais bancos centrais têm seguido uma política monetária expansionista, procurando restabelecer a confiança nos mercados. E os governos têm tomado medidas no sentido de minimizar os efeitos de feedback entre mercados financeiro e actividade económica. Do sucesso destas políticas dependerá a maior ou menor profundidade da crise. Espero que, escrevendo daqui a um ano sobre a eleição do facto económico de 2009, ele possa não ser a crise económica.
Vera Gouveia Barros
Documentos: DNfacto2008